segunda-feira, 29 de junho de 2026

Van Gogh e Seu Augusto - III

Fui chegando (no interior, não tem essa de campainha e nem portão com trancas) e, ao perceber minha presença, o simpático barbeiro dá uma risada, manda-me entrar e começa a cantar com mais vigor. Lá, estava o seu Augusto com a mesma alegria de outrora. Minha preocupação dissipou-se e aprendi uma das mais fortes lições de minha vida: a felicidade não depende das circunstâncias externas.

Que fazia diferença na vida de Van Gogh e Seu Augusto? É a mesma diferença na vida de pessoas que enfrentam grandes problemas com reações extremamente diferentes. Por que Van Gogh quis terminar a vida aos 37 anos e seu Augusto, com seus 80, ainda cantava e desejava viver ainda mais? Van Gogh era filho de pastor, mas, provavelmente, não conhecia o pastor dos pastores. Seu Augusto tinha experiência com Ele. Van Gogh conhecia, provavelmente, o salmo do bom pastor, mas seu Augusto conhecia o bom pastor do salmo.

Por, aproximadamente, uma hora conversamos, rimos, cantamos, lemos a Bíblia. Voltei para casa e, quase cinquenta anos depois, o sorriso de seu Augusto está vívido em minha mente.

domingo, 28 de junho de 2026

Van Gogh e Seu Augusto - II


Van Gogh, certa vez, num ato de autoflagelamento, cortou a orelha e enviou a um amigo pintor que brigara com ele. Seu Augusto teve uma das pernas amputadas em função de problemas de saúde com a senilidade. Van Gogh morreu, supostamente, por ação sua. Seu Augusto, de velhice.

Cresci, experimentei certa independência, deixei de cortar cabelo com seu Augusto. Coisas de rapazinho. Mas continuamos nos encontrando na igreja, no comércio onde trabalhava, aqui e ali. Seu Augusto sempre assobiando, sorrindo, beijando as crianças e dando um cascudinho de brincadeira. Fui para o Seminário e, quando estava no meio do curso, fiquei sabendo que seu Augusto estava bem doente. Numa de minhas idas à terra natal, resolvi visitá-lo. Mas que dizer para um velho que me viu criança e estava com uma das pernas amputadas, com possibilidades de amputar a outra, e não podia manobrar sua bicicleta velha? Fui preocupado à sua humilde casa e, quando me aproximei do portão, ouvi uma voz conhecida. Prestei atenção. Era do velho Augusto.

Sabendo de seu quadro, de longe, sua recepção me impactou. Sorriso e alegria com a perna amputada.