Era um período de descanso de cinco dias, incluindo o domingo, num agradável e confortável sítio na zona rural de Araruama. Preparando a bagagem, decidi: “Não levarei calça, não tem igreja lá perto e vou evitar o deslocamento até a cidade, até porque não sei como é a segurança no período noturno”.
Tenho costume de caminhar e, na primeira investida, peguei a estrada. Para minha surpresa, na direção que tomei, aproximadamente 300 m, uma Congregação Batista. Tomei conhecimento que se reuniam no domingo manhã e noite.
Chega o domingo. Crente raiz vai ao templo. Mas eu não tinha levado calça. Crente raiz não vai ao templo para as celebrações de bermuda ou short. Mas desejava tanto ir. Pela manhã, substituí, acompanhando cultos pela internet. Faria o mesmo à noite.
Aproximando-se do horário da celebração, decidi: “Eu vou ao culto, vou de bermuda mesmo, ninguém me conhece aqui, chego um pouquinho atrasado, fico quietinho lá atrás e participarei com aqueles irmãos”. Decidi não levar Bíblia impressa para evitar qualquer “escândalo”.
Assim foi feito. Cheguei. Sentei-me. Eles cantavam hinos conhecidos e eu adorava a Deus, mas sem muita ênfase para ocultar a “identidade de crente”, afinal estava de bermuda. O pastor começa a pregar. Tive a impressão que ele imaginou ter recebido naquela noite a visita de um perdido. Era o único visitante e suas abordagens eram bem contundentes sobre a necessidade de se render a Cristo, alívio para as dores, descanso para os cansados e apelo no final com hino também raiz.
Termina o culto. Os irmãos e irmãs começam a sair, carinhosamente me cumprimentam e querem saber de onde sou. Curiosamente, ninguém perguntou meu nome. O pastor já estava à porta para cumprimentar todos, percebi que não teve momento de entrega de dízimos e ofertas e sou informado que acontecera no início. Há um bom tempo praticamos como família, além de dízimos e ofertas especiais, entregar uma oferta em todos os cultos em que estivermos. Fui preparado para isso. Discretamente, fui à frente e depositei minha oferta com a orientação de um irmão que ainda estava sentado num dos primeiros bancos.
Ao retornar, esse irmão, bem idoso, me cumprimenta, fixa o olhar nos meus olhos e denuncia: “Você não é o Neemias, pastor Neemias?”. Ocultar, sim, mas não podia mentir. Respondi-lhe: “Não acredito, o irmão por aqui!”. Era conterrâneo meu, da inesquecível Cardoso Moreira, e devia ter uns quarenta anos que não nos encontrávamos.
Todo constrangido, expliquei-lhe a razão da bermuda, supliquei-lhe que não falasse com ninguém, muito menos com o pastor e ouvi daquele idoso irmão: “Não senhor, vou te apresentar ao pastor, que alegria reencontrar o senhor!”. Crente raiz idoso chama o pastor mais novo de senhor. E ele ainda fulminou: “Você é mais importante que sua roupa!”. Foi uma espada afiada rasgando meu interior. Um idoso cristão, semianalfabeto, sem formação teológica, compreendendo melhor do que eu a distinção entre espiritualidade e religiosidade. Além da edificação do abençoado culto, aprendi uma lição.
Passam alguns anos. Os jovens de nossa Igreja estarão na direção das celebrações no domingo. Após o período de orações, sou consultado sobre Mateus, o dirigente das celebrações, atuar, estando de bermuda com as explicações de vestir-se assim. Levei um susto. Dirigir o culto, que é transmitido, com a presença de vários crentes raízes? Respondi: “Resolve com o líder da Juventude”. E saí para o gabinete, enquanto a EBD acontecia.
Meditando e refletindo sobre o que planejara pregar naquela manhã, lembrei-me de que um dia fui ao templo de bermuda e ouvi de um idoso irmão: “Você é mais importante que sua roupa!”. Mateus estava de bermuda porque no dia anterior fora abalroado em sua moto por um carro, seu joelho e parte da canela estavam com aquele famoso “ralado” e o uso de calça o incomodaria.
Reflita: em nossa prática religiosa, estamos mais preocupados com a aparência ou com o interior?
Neemias Lima

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