terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O pão de queijo e o pão da vida

Por Neemias Lima

O voo era de Orlando para o Rio com escala em Brasília. Viagem tranquila com algumas boas horas de sono. A aterrissagem na capital federal seria antes das sete da manhã, oito e meia o destino era a cidade maravilhosa, dez horas pousava, meio-dia e meia estaria em casa, descansaria e dezesseis horas um casamento de jovens ovelhas.

Tudo muito bem planejado. Mas, e a vida tem sempre um mas, aeronave quase tocando na pista, decolagem abortada. Comissária de bordo: o comandante decidiu por segurança em função da pista molhada, vamos pousar em Goiânia. Reabastecimento. Espera na aeronave, mais de uma hora depois, retorno a Brasília. E começou a frenética maratona.

A chuva em Brasília impediu outros voos de pousarem e decolarem no horário, aeroporto cheio, acomodação em outros horários, um frisson daqueles. No check-in, meu horário programado para 16 horas. E o casamento? Argumentação com a atendente, por sinal muito atenciosa, alteração para meio-dia. Tem que sair correndo, o embarque vai encerrar em breve, advertiu a atenta funcionária do guichê, coisa rara.

Corro, corro, corro, chego, ouço o apelo de funcionária do embarque: “Tenho três ofertas de R$ 1.000,00 (hum mil reais) para quem desejar viajar às 16h”. Que oferta para esperar apenas três horas! Nem pensar, tem o casamento. Um interessado indaga: “Tem almoço?”. Ouve: “Sim, inclui almoço e lanche!”. Lembrei-me que a última refeição fora a escassa janta do longo trajeto inicial. 

Fome e sede. Entro na aeronave, na saudação, peço um copo d’água. Sento-me. Cadeira central. Na janela, um jovem. No corredor, uma jovem. Respiro lentamente. Relaxo. Percebo que os dois trocam palavras. Ofereço à jovem a oportunidade de trocar de lugar, mas ela recusa. Não se sente bem próximo da janela. Pensei: 50 centímetros apenas. Argumento que não ofereci ao jovem, presumindo que sua preferência era a janela. E era.

Perguntei para onde iriam. Cidade maravilhosa. Casamento de amigo. Coincidência o casamento, não a viagem, eles iam, eu voltava. Falei da maratona e, agora mais íntimo, revelei minha fome avassaladora. A jovem de prontidão: “Eu tenho pão de queijo aqui, quer?”. Sou meio reservado a aceitar imediatamente de gente não íntima, mas a fome nem me deu tempo de pensar e respondeu por mim: “Ah, seria muito bom!”. Elegantemente, peguei um. Ela orientou para pegar outro. Peguei mais dois. Comi lentamente, iludindo a fome. Relaxo novamente. Vem o lanche. Graças a Deus. Meu estômago saltitou. Decepção. Água, suco artificial, café e biscoitinho, aqueles salgadinhos, pacote pequeno, dois. Argumento com o funcionário se não tinha lanche mais substancial, estava viajando mais de 15 horas com apenas uma leve janta. Nada pode fazer. Então, suplico-lhe mais pacotinhos de biscoito, acrescenta três. Recolhem o material. Relaxo de novo. Minha companheira de viagem me lembra que tem mais pão de queijo já com o pacote aberto, devoro mais uns três. Agora deu.

Por elegância, pergunto seu nome. Cristiane. Significa “de Cristo, seguidora de Cristo, ungida”. A associação é imediata: Cristiane, pão de queijo, Cristo, pão da vida. Vagamente se lembrava que seu nome tinha significado importante, reforcei e realcei que sua atitude revelava ser de Cristo. O nome do jovem é Acyr.

Pão de queijo é um dos alimentos preferidos meus. Alimenta o corpo, faz bem ao paladar, renova a energia. Pão da Vida alimenta a alma, faz bem ao paladar, renova o espírito.

Cristiane supriu minha fome, mas tive fome mais tarde. Cristo supre a fome para sempre. Ele mesmo garantiu: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome” - João 6.35.

Minha fome era apenas um pequeno intervalo. Tem gente que passa fome permanentemente. O pão da vida disse: “tive fome física e vocês me deram de comer”. Estupefatos, perguntaram: “quando te vimos com fome e te demos de comer?”. O pão da vida respondeu: “quando fizeram a um desses pequeninos!”. Jesus disse “eu tive fome”, não “eles tiveram fome”. Isso diz algo para você? Que sejamos cristianes na vida dessas pessoas.

Ah, tá curioso sobre o casamento? Cheguei um pouco atrasado, mas consegui participar de praticamente tudo. E comi muito na recepção. 

*Pastor da Igreja Batista no Braga em Cabo Frio